Uma realidade absurdamente dura

Se você se emociona com facilidade, pense bem antes de ler A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini. Da mesma maneira que chorei copiosamente com o livro O Caçador de Pipas do autor, me debulhei em lágrimas mais uma vez.

Talvez seja por contar a história de duas mulheres tão fortes dentro de suas possibilidades num país como o Afeganistão. A trama é completamente atual, tendo como pano de fundo a guerra do país contra a União Soviética e depois de ganha essa briga, o levante dos vários “senhores de guerra”, de cada casta que há no país, lutando entre si pelo poder. Depois, para “organizar” o que o país estava se tornando, a chegada dos talibãs — homens que foram criados além de suas religiões, que cresceram no meio de lutas e mísseis. Estes, que seriam o alento do país também se tornaram duros demais, conservadores demais. O livro é tão atual que menciona inclusive o atentado de 11 de setembro, realizado pelo talibã Osama bin Laden. É uma boa maneira de entender melhor a realidade do país, pela ótica de pessoas que vivem isso.

E sempre são as mulheres quem mais sofrem: burcas, depender de homens para poder sair de casa, serem espancadas, humilhadas, estupradas, mortas por seus próprios familiares. Laila, filha de professor universitário e sempre incentivada a estudar, vê tudo se desfazer, se vê obrigada a usar burca, a não poder pensar. Marian, uma harami, ou seja, uma bastarda, nunca teve instrução, nunca nem pensou que teria capacidade de ajudar tanto a pessoas amadas. É através de seus olhos (escondidos atrás das redinhas de suas burcas) e de suas realidades que vemos como a vida pode ser mais difícil do que o imaginável.

O livro mostra o que é uma guerra, o que é uma cultura, o que é a religião para esses países do Oriente Médio. Nada é fácil, tudo é doloroso, todas as lutas (internas, físicas e ideológicas) estão muito próximas do fio tênue entre a vida e a morte. Mas existem momentos felizes, como sempre acontece: a gente tem que ver a felicidade em algum lugar ou não agüentaria sobreviver...

O título original, A Thousand Splendid Suns (uma centena de esplêndidos sóis), foi inspirado em uma poesia que se refere à cidade de Cabul, escrita por um poeta afegão, que foi proibido de ser lido pelos talibãs (tal título faz muito mais sentido e claro, é bem mais poético, como você verá no livro), assim como todos os outros livros que não fossem o Alcorão e também pintar, escrever, cantar. O mais impressionante é o tanto que o povo já sofreu por seu país e que, mesmo assim, volta para reconstruí-lo.

Comentários

Adorei esta página. Sou professroa de língua portuguesa, ministro aulas no ensino médio na ETEC de Ipaussu, e estou trabalhando o diario de Anne Frank com meus alunos, pois sou apaixonada por essa obra. Parabéns!!!