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Ele decide ir para a cidade com a desculpa de escrever para um jornal de Istambul sobre moças muçulmanas que estão se suicidando na cidade: elas não aceitam tirar o véu, conforme o Estado vem exigindo para que possam freqüentar a faculdade. Mas, ao mesmo tempo o suicídio é condenado pelo islamismo: para afirmar sua religiosidade, estão cometendo um pecado. Enfim, os suicídios são somente uma desculpa para ele ir à cidade rever Ipek, uma amiga de sua época de faculdade.
A discussão do livro, que tem como tempo de acontecimentos 3 dias (os dias em que a cidade fica incomunicável por causa da neve que não pára de cair) é sobre os ideais e as lutas de ideais entre um Estado secularista e os islamitas – conflitos raciais e religiosos. Além disso, os personagens exigem de Ka que decida se é ou não ateu – algo que parece essencial para a sociedade deles.
Enfim, o livro extremamente moroso (imagine: quase 50 páginas para 3 dias), o que cansa a leitura. E como é um assunto que não compreendo tão bem, já que é uma outra cultura, uma outra forma de ver e exigir as coisas da vida, o livro exige uma grande concentração. Até aí, tudo bem. Mas, o desfecho é sem graça, a história não tem um fim.
Mas, claro, tem suas partes interessantes. Vou transcrever aqui as falas de um jovem curdo, que discutia com vários outros, de várias “facções” e religiões, o que escrever para o jornal alemão, que Ka inventou que trabalhava (ele fazia um freela para um amigo em Istambul, e não em Frankfurt), para que o Ocidente – gente hipócrita, segundo eles – soubesse o que pensavam as pessoas do Oriente:
“O maior erro da humanidade, a maior ilusão dos últimos mil anos é a seguinte: confundir pobreza com estupidez. Através da história, os líderes religiosos e outros ilustres homens de consciência sempre alertaram contra essa confusão vergonhosa. Eles nos lembram que, como todo mundo, os pobres têm coração, mente, humanidade e sabedoria.
(...)
As pessoas podem lastimar a sorte de um homem que passa por dificuldades, mas quando toda uma nação é pobre, o resto do mundo imagina que todo o seu povo deve ser desmiolado, preguiçoso, sujo, um bando de imbecis grosseiros. Em vez de inspirar piedade, esse povo provoca gargalhadas. Tudo é uma piada: sua cultura, seus costumes, seus usos. A certa altura, no resto do mundo, algumas pessoas podem começar a sentir vergonha por terem pensado assim, e quando olham em volta e vêem imigrantes daquele país pobre limpando o chão e fazendo outros trabalhos mal remunerados, naturalmente começam a se preocupar com o que pode acontecer se um dia esses trabalhadores se levantarem contra elas. Então, para evitar que as coisas degringolem, começam a mostrar interesse pela cultura dos imigrantes e às vezes chegam a fingir que os consideram como iguais.”
Vem cá, fala sério: que tapa na cara, hein!?
É de se pensar: será que o terrorismo começa assim?
Essa postura é a cara dos imigrantes na Europa, não!?
Será que o Brasil está muito longe dessa realidade?
Por essas discussões, o livro compensa, mas, eu não indico. Político demais e ao mesmo tempo, superficial – é a minha opinião, é claro! Quem sou eu para julgar mal o livro que fez com que o autor, Orhan Pamuk, ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 2006...
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